PESSOAS INTERESSANTES
“ONTEM conheci uma pessoa tão interessante”, disse ela, enfatizando o “tão”.
Revirei os olhos, enciumado.
“Ah, é?! E o que tinha ele de interessante?”
Nem era preciso perguntar. Pessoas interessantes não são indivíduos. São entidades. E estão por toda parte, são ameaça constante: não têm hora nem lugar para aparecer.
Deus o livre, leitor, dessa gente interessante!
Ela desfiou o rol de qualidades do biltre (nesse caso, contrariando as leis do método, a parte comporta o todo): a pessoa interessante conhece o mundo, nossa! viajou pra mil países fala três idiomas! três! conhece tudo de música e literatura e está estudando pra concurso vai ser juiz – respirou. Muito legal ele…
“Ah, e tem uns cabelos assim, ó…”, mostrou com um gesto como eram interessantes os cabelos.
Cuidado, mulheres, com homens cujos cabelos são interessantes e sabem de antemão que serão juízes!
“E você, o que falou pra ele?”
“Ah, sei lá! Eu só ouvi… gostei mais de ouvi-lo. Tudo o que ele fala é tão”…
Tedioso, pensei.
“Interessante”, completou, para meu desgosto.
Pessoas interessantes, leitor, não ouvem. Pessoas interessantes falam. Melhor: pessoas interessantes não falam. Pessoas interessantes ensinam. Não há nada que um exemplar da espécie não possa lhe explicar com propriedade: os segredos mais recônditos embutidos numa cena de “Oito e Meio”; o universo e o desvio para o vermelho; detalhes do assassinato de Gianni Versace; o verdadeiro papel de Maria Madalena na vida de Jesus; aquele livro do Borges que ninguém conhece, mas que é “fan-tás-ti-co”!; diferenças precisas entre Zico e Platini; e, por fim, o motivo por que neste país (argh!) a cultura anda tão em baixa – ênfase no “tão”.
Deus o livre três vezes, leitor, desses cidadãos interessantes!
Talvez eu seja mesmo um caipira, mas não os suporto. Olhando-os do meio do mato, montado no meu pangaré, na beira do corguín que atravessa a fazenda, não posso deixar de pensar: “falso”. Tudo nessa gente é falso.
Sempre tive a impressão de que esses modos afetados, de quem exibe Joyces, Farkas Tourés, Nouvelles Vagues e afins têm a função inglória de compensar a vontade sublimada de dirigir uma Mercedes. Não podem desfilar com lataria importada, tratam de exibir o palavrório pavônico coalhado de nomes portentosos e sofisticações mil.
“Ser interessante” é a tábua de salvação da pequena burguesia. Arruinada, ela vê na “alta cultura” e no Estado os botes salva-vidas que a levarão para longe das águas fundas do proletariado.
Rico, rico mesmo está se lixando pra cultura.
Cultura, como artigo de luxo, é coisa de pobre. De pequeno-burguês decadente. O burguês burguês, aquele que sai correndo quando a reunião acaba, não lê (só contratos), não ouve música, não joga conversa fora. Vai direto ao assunto. Mais ouve que fala. Os burgueses burgueses são bem desinteressantes. Ênfase no “bem”.
As pessoas mais legais que conheci na vida eram espontâneas, naturais, comiam pão com mortadela, gostavam de falar da infância debaixo do pé de jabuticaba e sempre estavam mais interessadas no que você dizia do que naquilo que iam lhe dizer. Deixavam-se perscrutar apenas pelo brilho dos olhos.
Um velhinho das antigas, tal de Ernesto, bebedor como ele só, ensinava que um bom conto devia ser como um iceberg. No iceberg só a ponta dá-se à vista; a base, o mais importante, fica imersa na incógnita das águas. O conto é bom pelo o que esconde, não pelo o que mostra; pelo o que sugere, não pelo o que esfrega na sua cara.
Nesses tempos de superexposição, de gente se pavoneando para todo lado, nós devíamos ser como os contos do velho Ernesto: devíamos ser mais icebergs.